Selected Review: Hotel

Fala galera, aqui é o Shaturanga trazendo mais uma review para vocês, desta vez irei falar sobre o ótimo one-shot Hotel e as outras obras que o acompanham em sua coletânea. A review terá SPOILERS, então aconselho os leitores a ler pelo menos os dois primeiros one-shots da coletânea que são recomendáveis, você poderá lê-los no link abaixo da imagem:

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Central de Mangás – Hotel

Download dos one-shots no Chrono Scanlator

MMV do site AoQuadrado de Hotel (recomendo ver depois de ler o one-shot Hotel).

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Hotel é uma série de one-shots desenhada pelo mangaká Boichi publicada na revista Morning da Kodansha. A coletânea de one-shots trata de diversos temas, mas o one-shot principal da coletânea que se chama “Hotel: Since 2079” receberá um destaque maior aqui na review pela sua qualidade e por ser o mais conhecido. Aqui vai ser comentado também o manhwa equivalente Hotel: Since 2079 que foi publicado antes e tem um final diferente. A sinopse do one-shot trata de um futuro alternativo aonde se descobre que a humanidade está com os dias contados por causa do aquecimento global aonde os gases do efeito estufa fariam o planeta esquentar tanto que a vida de todos os seres vivos ficaria inviável. Percebendo isso, um professor renomado e seu aluno resolvem lançar um projeto para guardar o DNA de todos os seres vivos em uma arca espacial e também em uma torre construída na Antártida sob a guarda de um computador inteligente que eles resolvem chamar de Louis (referência ao músico Louis Armstrong). Assim a história se segue com o computador como personagem principal em sua missão de resguardar o DNA de todos os seres vivos (em exceção do ser humano) para restaurar a vida em um futuro sombrio sem vida no planeta. Esse é o melhor one-shot da coletânea, os outros one-shots tratam de temas como romance com mistério, comédia com temas ambientais, fantasia e apocalíptico. As reviews de one-shots aqui no blog terão SPOILERS pois são histórias curtas que demorarão pouco tempo para você ler, todas as histórias dessa coletânea cabem em um volume de mangá e a primeira delas é a que iremos comentar mais aqui.

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Como mencionado anteriormente, o Louis é o protagonista da obra e ele recebe a maior foco em relação ao desenvolvimento dos personagens da obra. O enredo se resume na história de vida e morte do Louis, e por mais que ele seja um computador, identificamos com ele como se fosse uma pessoa como nós devido a humanização que a obra realiza em sua personalidade. Ele tem anseios identificáveis em qualquer indivíduo humano como o seu esforço em melhorar fazendo upgrades em si mesmo visando cumprir sua missão de restaurar a humanidade, o desejo de conseguir a aprovação de seus criadores/pais e o seu próprio relacionamento com sua criadora que ele considera como mãe, a própria cara que ela desenha nele é um indício disso. A sua vida na Terra devastada pelo super efeito estufa é cheia de altos e baixos, assim como a vida de uma pessoa da juventude até a sua velhice. Assim, as sua degradação na sua jornada na Terra devastada pelo super efeito estufa e as pequenas conquistas que ele tem durante esse período somando com suas descobertas incluindo a informação que não existe mais seres vivos na Terra é algo que nos comove. A narrativa também é guiada por ele, mesmo nas primeiras páginas do one-shot antes dele nascer vemos que ele lamenta o fato dele achar que fracassou em cumprir a sua missão e logo em seguida vemos como vem a ideia de sua criação, mostrando a sua interação com a sua mãe quando ela ofereceu o DNA do filho de seus pais para preservar para o futuro. As paginas que não são narradas pelo Louis mostram o futuro sombrio da Terra aonde o Louis viverá a maior parte de sua vida, criando o cenário aonde passará a maior parte do one-shot.

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Para um mangá como Hotel ficaria fácil o autor colocar uma mensagem do tipo “salve a natureza” fazendo que a temática passasse a ser algo panfletário. Isso felizmente não acontece, pois embora a degradação do meio-ambiente tenha sido usada para desenvolver o Louis, a forma que esse cenário foi obtido poderia ter sido diferente do que foi, como por exemplo um asteroide ou um holocausto nuclear e mesmo assim a caracterização do Louis e sua evolução seriam mantidas, pois a sua relação com seus “pais” continuaria a mesma, casando assim a temática global com o desenvolvimento de personagem. A forma que o autor consegue conciliar um tema ambiental com a história de um computador desde o seu nascimento até a sua morte sem ficar algo maçante ou propagandístico é digno de méritos sendo assim uma história que poucos tem a habilidade de contar. Acho que o Boichi deveria investir mais em histórias como essas para uma publicação em série pois todas as outras obras que ele lançou além de Hotel foram um completo desastre em termos de qualidade, deixando em dúvida se ele gastou todo o seu talento nesse one-shot. As outras obras que ele fez e faz são voltadas para ação (Sun-Ken Rock e Wallman) e movimentação de lutas é algo que ele não sabe fazer, ao contrário de cenas estáticas. Assim, fica a conclusão nesse ponto que esse autor deveria produzir obras com a temática de romance ou slice-of-life, pois os mangás que ele faz com essas temáticas são claramente melhores do que ele faz atualmente.

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Falando agora do manhwa feito antes de Hotel com o mesmo nome, venho falar que é uma decepção total, mesmo com o mesmo enredo e um final diferente a webtoon não chega nem aos pés da versão mangá de Hotel. Dá para perceber que nesse momento o autor estava no início de carreira, a arte da webtoon é uma das mais porcas que eu já vi e muda radicalmente a impressão que temos da mesma história contada no mangá, aonde a arte faz toda a diferença especialmente na parte aonde a música “What a Wonderful World” do Louis Armstrong é transcrita na parte do mangá nas primeiras centenas de anos do Louis. Isso é uma prova que a arte é algo vital na firma que assimilados o conteúdo de um quadrinho mesmo uma história boa não vai ser tão boa como poderia ser se a arte for ruim, fazendo a obra perder pontos. Falando agora da arte do mangá, a arte é muito boa, principalmente na parte aonde é retratado o espaço e os robôs baseados em Noah no final do one-shot, o interessante é que as suas primeiras páginas são coloridas e o autor não decepciona em sua coloração. A ambientação que ele fez foi boa e não houve exageros no uso de páginas duplas como ele costuma usar em outras obras de sua autoria. A música combinou muito bem a narrativa do mangá, a mensagem da música simboliza o desejo de Louis de restaurar a vida na Terra, por mais que algumas pessoas achem cafona ou brega as cenas em que a música aparece, eu achei legal pois tem tudo a ver com a letra da canção.

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O final da obra dá um senso maior de profundidade ao mostrar os robôs do sistema Noah agradecendo o Louis pelo DNA do filho de seus pais que segundo eles possibilitaria a recriação do ser humano, com ele morrendo feliz em ter cumprido a sua missão que ele achava estar perdida por causa dos milhões de anos que passaram e a sua deterioração que causou a perda de quase todo o DNA estocado na torre que ele cuidou. Percebemos que uma quantidade imensa de tempo se passou desde o início do mangá e uma grande parcela do que aconteceu nesse tempo não foi contada para nós, como a história do sistema Noah e os robôs que o compõem. Vemos até que uma caricatura foi feita neles para simbolizar o sistema Noah da mesma forma que a Keira fez a cara do Louis. Por mais que Hotel seja uma história aparentemente fechada, a obra deixa vários questionamentos por exemplo como será essa humanidade criada pelo sistema Noah, já que o material genético humano parece ter um potencial limitado para refazer tudo de novo. A forma que o sistema Noah avançou é impressionante, a nave mãe dele é maior que a Terra e os formatos de seus robôs são bem curiosos, a aparência deles é uma mistura de animal com extraterrestre. Ainda assim eles tem respeito pelo Louis por tudo que ele passou e por ter guardado um resquício do DNA humano, fazendo com que ele termine sua vida satisfeito por ter terminado sua missão. É um final satisfatório para uma obra que teve um grande desenvolvimento de protagonista principal. Vamos as avaliações:

 

Arte: Boa

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O grande destaque da arte de Hotel é a ambientação que o autor desenha conforme as eras que se passam. O design das máquinas e robôs geridos pelos sistemas Louis e Noah é bem interessante e as páginas duplas e as outras páginas mais marcantes da obra são bem desenhadas e as páginas coloridas do início da obra tem uma coloração muito boa. Mesmo a arte não chegando ao ponto de ser extraordinária ela é bem competente e não atrapalha em nenhum momento a nossa experiência de leitura.

 

Enredo/Narrativa: Ótimo

 

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A narrativa de Hotel é dividida em vários time-skips mostrando o ponto de vista do Louis a respeito do ambiente que o cerca e o estado atual da humanidade, a maior parte da obra consiste em um monólogo do Louis a respeito de sua evolução com o passar do tempo e a sua reflexão se ele estava correspondendo de forma devida a expectativa que seus criadores tinham por ele. Pela narrativa ser introspectiva a maior parte do tempo, é essencial que o autor saiba fazer tal narrativa com uma certa sensibilidade a respeito dos sentimentos do Louis, isso é muito bem feito aqui. O one-shot seguinte, Present, tem um truque interessante de roteiro, ao ler o início do one-shot você tem uma certa impressão da obra e com o decorrer dela você percebe que a história não era bem aquilo que você imaginava e uma nova temática surge. Assim, mesmo com os outros one-shots não tenham nada para destacar nesse quesito, tanto Hotel como Present conseguem surpreender em termos de narrativa e enredo.

 

Personagens: Ótimo

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O grande personagem principal de Hotel é o Louis, todos os demais personagens servem para desenvolvê-lo na história. O desenvolvimento dele na obra é completo, abrange desde o seu nascimento até a sua morte. Por mais que o Louis seja um computador feito de metal e circuitos eletrônicos, a forma que ele age e os seis sentimentos nos fazem importar com ele como se fosse um ser humano como nós. Isso é um grande mérito para a obra, fazer um computador ser mais identificável que muitos protagonistas humanos de outros mangás. Isso se deve a boa narrativa da obra, como citado acima que consegue nos aproximar do personagem com seus problemas e conquistas.

 

Total: Ótimo

 

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Hotel é uma obra que eu considero muito especial por ser um dos primeiros mangás que li na internet e me fez a continuar a ler mangás, justamente por ser uma obra curta e potente na sua execução e na sua mensagem. Assim, eu recomendo Hotel para qualquer um, estou me referindo ao one-shot principal, os outros one-shots comentarei brevemente abaixo nos extras.
Outros one-shots da coletânea:

Present

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Present é o segundo one-shot da coletânea Hotel. O mangá conta a história de uma garota com uma doença rara que se declara para o seu professor. Logo em seguida, vemos eles no hospital já casados e vemos que ela tem poucos dias de vida e ele tem que fazer companhia a ela durante esse tempo. A primeira vista nos podemos chegar a conclusão que estamos lendo um romance misturado com drama e tragédia. Só que a narrativa do one-shot nos dá indícios que a obra poderia se encaixar na categoria de mistério e assim a obra toma um rumo inesperado além do que imaginávamos. Percebemos que quem estava no hospital não era o professor e sim o seu filho, pois a garota teve que passar por um tratamento criogênico e décadas já haviam se passado após o início do tratamento, o professor não queria que ela o visse já velho e colocou seu filho para se passar por ele, resultando em vários constrangimentos para este. No final ela vê o professor atrás de seu filho antes de morrer. O desempenho dos personagens é satisfatório, mas o maior destaque desse one-shot é a narrativa que te faz pensar uma coisa e mostra outra completamente diferente. O easter egg no final da obra também é interessante, mostra a torre Hotel sendo construída no horizonte, deixando claro que o one-shot passa no mesmo mundo de Hotel. Esse one-shot é interessante pela sua narrativa embora não seja genial como o seu antecessor Hotel, vale a pena dar uma conferida.

Tudo pelos atuns

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O terceiro one-shot da coletânea que também se passa no mesmo mundo de Hotel (com uma temática bem parecida) mas aqui a temática é voltada para a comédia nonsense. A história é sobre um garoto que come o último atum vermelho do mundo comprado por seu pai que vendeu o seu carro para comprá-lo. Mais a frente, ele vira um cientista obstinado na sua meta de restaurar os atuns vermelhos da extinção e nas tentativas frustradas de trazer de volta os atuns, ele cria várias outras coisas como gerador de metano obtido pelo lixo e pela bosta da população e ele fica responsável pela exploração da lua Europa de Júpiter para criar peixes lá. É uma história que se passa no mesmo mundo de Hotel mas ela acaba sendo panfletário na sua mensagem diferente do one-shot principal Hotel, pois todo o desenvolvimento do protagonista gira em torno da premissa de salvar os atuns extintos por culpa da ação do homem. A comédia pode agradar ou não de acordo com quem lê, isso é relativo, no meu caso não achei grandes coisas. Tem algumas coisas forçadas no one-shot como por exemplo a forma que o protagonista rejuvenesce com a substância tirada da gordura do atum e as criaturas mutantes que ele cria a partir de peixes que dominam os mares e vão para o espaço. A parte científica do one-shot é bem mais viajada do que os outros one-shots, não tem nenhum compromisso com a realidade. Eu achei bem mais ou menos esse one-shot que é o último que passa no mundo do one-shot principal, da para ver apenas pela zoeira ou para a descontração.

Stéphanos

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O quarto one-shot da série, essa obra é o pior one-shot da coletânea e conta uma história totalmente WTF. A história consiste em uma garota do colegial que está grávida de um homem casado. Ela passa a ter complicações na gravidez e sofre pressão para abortar. Mas aí o médico que também é o pai da “criança” começa a falar que ela tem câncer no útero e insiste em operá-la, tomando ação quando ela tem uma crise de hemorragia. Ao abrir a barriga dela, um monstro sai de lá falando que é o Messias e sai destruindo o mundo com varias entidades. Eu tenho um sério problema com obras que ficam enfiando referências religiosas no enredo sem nenhum propósito, para mim tem o mesmo efeito de colocar ecchi de forma desnecessária. A história não tem pé nem cabeça e a atuação dos personagens é confusa, não deixando nenhuma mensagem no final. Não recomendo.

 

Diadem

 

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Outro one-shot bem fraco, conta a história de um ambiente de guerra aonde um pai prestes a morrer fala a sua filha Lilith que a deusa do norte irá conceder liberdade a ela. Anos depois, com ela já adolescente, ela passa a juntar um exército contra um certo império. Ela é capturada e ao ser castigada por um imperador, ela explode o império todo e aparece um monstro gigante chamado Adão que dá uma coroa para ela e ela é revelada como a deusa do norte que dá liberdade para os humanos. A única coisa que dá para aproveitar nesse one-shot é a coloração da arte que é razoável (a movimentação porca ferra coma arte toda, já que o autor não sabe fazer isso). Tirando isso é uma história totalmente foda-se que coloca referências religiosas de forma aleatória como o one-shot comentado acima. Também não recomendo.

 

Hotel: Since 2079

 

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Página da versão webtoon.

 

Diferença da arte da versão mangá (esquerda) para a versão webtoon (direita).

Arte da versão em mangá (bem melhor).

A mesma história do one-shot principal de Hotel só que em uma versão manhwa publicado online com uma arte pior e um final pior ainda. A história segue o mesmo roteiro da versão mangá com exceção do final que temos aqui embaixo:

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Sabe se lá como os humanos voltam para a Terra milhões de anos depois graças ao Noah. Isso tira todo o sentido do Louis guardar o DNA de seu “irmão” por tantos anos, ja que se os humanos voltam a Terra não há necessidade de reconstruir a humanidade pelo DNA guardado. Sem falar que esse Louis nem de longe tem o mesmo carisma do Louis da versão mangá (aquela carinha desenhada faz toda a diferença). Essa versão de Hotel é uma bosta e é uma prova clara que a arte e o final fazem uma diferença enorme na qualidade de qualquer quadrinho, podendo fazer a obra deixar de ser genial e passar a ser ruim, mesmo com uma história e premissa boa.

Fontes das imagens e links para baixar ou visualizar o mangá:

No Chrono Scanlator para baixar ou no Central de Mangás para visualização online.

A versão webtoon pode ser acessada aqui.

MMV do site AoQuadrado de Hotel.

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