Selected Review: The Music of Marie

Venho trazer mais uma review de um mangá que embora seja uma leitura agradável aborda um tema complexo de forma criativa e repleta de simbolismos. The Music of Marie (Marie no Kanaderu Ongaku) é um mangá criado por Usamaru Furuya (autor de Palepoli, Jisatsu Circle, Litchi’s Hikari Club, Genkaku Picasso) em 2000 na Comic Briz, da editora Gentosha. Os gêneros do mangá são: Drama, Fantasia, Psicológico, Romance, Tragédia, Sci-fi, Seinen. O mangá se encaixa na categoria clockpunk, que se encaixa em um futuro alternativo pós-apocalíptico com todas as tecnologias baseadas em engrenagens sem a presença da eletricidade.

pagemusicofmarie

 

O mangá começa retratando um mundo fantasioso com uma sociedade que funciona perfeitamente. Nessa sociedade é cultuada Marie, uma deusa mecânica que tem a forma de uma mulher robótica gigante construida com engrenagens e que orbita pelos céus. Essa sociedade é completamente idealizada, quando falo dessa forma quero dizer que ela funciona perfeitamente, todos os seus habitantes convivem em paz e estes são autoconscientes, fazem a sua parte para construir uma sociedade melhor. O manga é inicialmente centrado no Kai, personagem principal que possui uma audição bem apurada e com essa audição ele consegue ser bem útil na mineração na busca de metais. Ele vive na cidade de Gil ao lado de sua amiga de infância Pipi, que é apaixonada por ele. O Kai é a única pessoa que consegue ouvir a “música de Marie” e ele vai a seu caminho em busca de iluminação.Lá, ele enxerga qual é a realidade por trás daquela sociedade e é posto diante de um dilema interessante.

00c02-03

Comentando um pouco do mangaká Usamaru Furuya, ele é um autor que tem um traço caprichado, fazendo jus a sua formação como professor de arte. Ele já fez várias obras muito boas e algumas nem tão boas assim. Os cenários e páginas duplas que ele faz no mangá são um colírio para os olhos, favorece muito a imersão do leitor e consegue construir um cenário bastante original. Irei comentar mais da arte na parte de avaliação do mangá.

01

Acredito que The Music of Marie é uma obra para provocar discussões. Não é uma obra superficial, como vi em algumas discussões na internet, pois o enredo é construido de forma complexa e repleta de simbolismos e detalhes que são importantes no final, sendo claramente ajudado pela ambientação que o autor constrói, que é muito boa mesmo. É o tipo de obra feita para releitura, é muito difícil você sacar todos os simbolismos e pistas que o autor dá para o final, a não ser se você for um ninja. A narrativa do mangá é dividida entre os seus dois volumes: no primeiro, a narrativa é lenta (quase um slice-of-life) para nos apresentar aquele mundo para o leitor. No segundo volume, a narrativa é mais frenética e aborda questionamentos sociais, morais e religiosos, como na cena da conversa com o Kai e o padre, em que o último mostra a sua desilusão com a sua fé. Segredos são revelados, vários dilemas morais são apresentados para nós e as consequências da decisão do protagonista diante desses dilemas são retratadas. O mangá não traz nada pronto ou mastigado, ele joga a bola para você e fala: O que você faria nesta situação? O que você pensa sobre isso?

02c26-27

O final de The Music of Marie é de derrubar qualquer um da cadeira, é totalmente inesperado e por mais que algumas pessoas achem estranho e abrupto, a narrativa do mangá oferece várias dicas para o leitor do final que só se consegue entender em uma releitura. The Music of Marie não tem um tema central, por isso algumas pessoas achem que o mangá é subjetivo e superficial, eu discordo de todas elas e afirmo que essa obra é um mangá completo, que aborda vários temas como religião, ditadura, sociedade humana, uso da tecnologia, sentido da vida, certo e errado, felicidade, humanidade, conceito de liberdade e livre-arbítrio e muitos outros temas. A obra faz um mix de tudo isso e joga a bola para você formular a sua própria interpretação e opinião, não passando assim uma moral da história final e sim fazendo você produzir a sua própria moral da história.

Assim eu recomendo The Music of Marie para todos que querem dar um passo além no mundo dos mangás mais sérios especialmente para quem se restringe a ler shounens por diversão ou para quem não conhece muito bem a mídia e tem um certo preconceito com mangás. Vamos a classificação:

 

Arte: Excelente

12c18-19

O Usamaru Furuya é um artista primoroso, toda a construção de mundo, as perspectivas e a ambientação que ele faz na obra é impecável e as técnicas de filtros e cores feitas com guache que ele usa ao fazer as páginas coloridas é típico de um pintor, considerando que ele já foi um professor de artes visuais. Na arte do mangá há referências claras da Renascença e do período barroco e essas referências são exportadas para a história do mangá. O autor consegue usar muito bem os espaços positivos e negativos nas páginas duplas do mangá, somando assim com o senso de profundidade bem desenvolvido através da arte. Essas referências citadas possibilitam o autor criar um contraste entre o antigo e o moderno, o místico e o tecnológico, o mecânico e o orgânico/biológico. A forma que o autor usa notas musicais para compor certos elementos do mangá como os quadros de temas dos capítulos e detalhes do personagem principal é bem interessante.

Enredo: Excelente

03c16 03c28

O enredo de The Music of Marie é fechado, do tipo que “os fins justificam os meios”. A história tem uma narrativa fluida mesmo com as complexidades que o enredo traz e não fica algo maçante. O enredo do mangá está muito ligado com a sua arte, e juntos eles trazem muitos simbolismos e mensagens nas entrelinhas que impactam diretamente no final da obra, tanto é que que só é possível entender todas essas mensagens em uma releitura, que eu acho fantástico. O worldbuilding da obra é fantástica, toda aquela sociedade utópica é explicada de forma bem convincente, a forma que ela funciona através das ilhas e a setorização e troca das produções é bem interessante. Nas construções das máquinas do mangá há a influência clara de Leonardo da Vinci.

Personagens: Bom

00c13

Não existe nenhum personagem brilhante na obra, não que isso seja uma falha na obra, mas sim porque esse mangá é plot-driven até um pouco antes do final, quando a obra muda a referência do ponto de vista para outro personagem e causa um impacto tremendo no final. A personagem de destaque nesta obra é a Pipi, vocês entenderão isso ao terminar de ler a obra.

Classificações extras:

04c10-11

Originalidade: Excelente

The Music of Marie tem as características do autor bem impregnadas, a forma que ele usa técnicas de pintura faz a obra ter um estilo bastante singular, bem diferente dos demais mangás produzidos, mesmo comparando com outros mangás bons. A forma que ele monta todo o mundo do mangá usando apenas engrenagens é um show de criatividade, bem no estilo Clockpunk.

12c26-27

Classificação geral: Excelente

Fontes das imagens e links para baixar ou visualizar o mangá:

No Fuji Scan feito em português em parceria com a OtakuYO! , com a tradução já completada.

Online no Central de Mangás.

 

Anúncios

3 opiniões sobre “Selected Review: The Music of Marie

    • Valeu pelo comentário!
      Eu recomendo que depois de ler esse mangá faça uma releitura pois esse mangá tem mini detalhes e simbolismos que só é possível pegar numa segunda leitura. Mais tarde pretendo fazer uma análise com spoilers dessa obra.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s